Roosevelt Vieira Leite

 

BAJICA


BAJICA

Uma velha frequentava aquela cadeira que ficava na eira de dona Chiquinha. Os anos passavam e o menino que a via crescia como cresciam os cajueiros do sítio. A saliva da estranha idosa escorria dengosa, livremente, sem nenhuma restrição rumo a palma da mão infante, que sem nojo, ou repugnância amava falar com senhora velha de nome Bajica. Bajica nada dizia, sem palavras nos ensinava, e, o moleque sapeca das areais da Aldeota entendia por intuição o silêncio da alma que se aproxima do sagrado chão. Dizer na velhice é muito mais dizer com os olhos; é dizer com as rugas, com as cãs, ou com os sonhos, tenham sidos eles felizes ou não.
A criança corria, e Bajica não; a criança cantava, e Bajica não. A velha do sítio, mesmo em silêncio e entrevada na madeira não perdia uma brincadeira. Era Chiquinha Neta, eram os sobrinhos da dona da propriedade, enfim; eram todas crianças de todas as idades e uma velha calada, sempre babada a encantar toda a “negrada”.
“Sem Bajica nada feito”. Esta era a combinação de Paulinho, de Carlos, de Francisco, de Marcos e do resto da molecada, até, as meninas saiam dos quartos com as bonecas na mão; era a Bajica que estava na eira perto do tangue de lavar roupas. Era a velha calada, de semblante riscado como as linhas da mão. Era a moça que também foi criança como tu e eu, ou, como seu João do ‘jogo do bicho’ que pensava que não iria secar como a carne seca do sertão.
Enquanto os fogos estalavam em uma tarde de São João ou de São Pedro, a meninada eufórica gritava de alegria; Bajica sentada nem a cabeça movia. Mas, seus olhos tudo me contavam. Mas, o olhar da velha era uma janela aberta em uma noite meiga de luar. Aqueles olhos eram flechas soltas, lançadas no tempo que haviam se perdido por aqui, e por ali. Eram setas afiadas, e outras tão cegas que a ninguém poderiam ferir.
Ah, se eu tivesse sido assim; ah, se eu tivesse feito aquilo, ah, se eu não tivesse vindo pra cá, ah, se eu não tivesse ido pra lá.
A turma, a molecada, a meninada com nada se atrapalhava, pois, não tinham tantas perguntas no mundo. E o sítio de Chiquinha cada vez mais ficava menor. Um foi para o Sul, o outro para o Maranhão. Dia a dia cada um sumia como as flores do sertão quando chega a seca.
A velha Bajica sentada em sua cadeira também viajou. E eu, o mais novo de todos, o caçula de casa, o “neném” da tropa, numa tarde de chuva fui ter com ela. O lençol branco que cobria a figura inerte não me respondia. Nenhum som de fôlego me apareceu. Nada! Era uma figura deitada numa cama, coberta de linho branco. Bajica se foi, e um pedaço de mim, também!
No sítio de Chiquinha, na Aldeota, que fica em Fortaleza, se foi um pedaço de mim que ainda procuro pelo mundo. Ele deve estar em algum lugar tenho toda certeza. O chamo até hoje quando a tarde declina, ou, quando o sol perde sua beleza.
E agora que aprendi a laçar meu boi, vejo Bajica, em todos os pastos que passo! Seja nas cidades ou nas estradas empoeiradas por onde o viajante encara suas encruzilhadas, ela está, lá; tão linda que não disfarça, pois, sem ela, o mundo perde todo o sentido, toda a sua graça.
Nascer, envelhecer, e morrer; o estar sentado, ou a correr são faces de um dado jogado em uma mesa sem mimo, sem delicadeza. Contudo, depois de um pouquinho de agonia; o suspiro do dia renasce no rosto daquele que viu a velha do sítio de Chiquinha. Os olhos da menina, da moça, da velha, agora, espalhados por todos os lados; sejam jovens, ou, adultos, velhos ou crianças, todos têm o mesmo brilho, o brilho do de Bajica. Este é o brilho de vida numa cara ferida, bem riscada, mas, com muitas risadas dizia Chiquinha da pobre velhinha da cadeira de madeira que estava na eira perto do tangue do sítio na Francisco Holanda...






Em 21/01/2018 às 22:35:17

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