Marcos Cesar de Toledo

 

VOLTANDO DO IN FERNO


VOLTANDO DO INFERNO

Coronel Wilton sujeito sisudo vivia sentado em sua varanda, olhando para o tempo, o dia todo e todos os dias, parecia tomar conta da vida dos outros, mas ele pouco se importava com a vida alheia.
O máximo que Wilton falava era com a caixa do mercadinho, pois tinha que perguntar o preço e pagar suas compras, se não tivesse que comer ele nem falava com ninguém.
Diziam na rua e nas imediações que ele tinha voltado maluco da guerra e por isso não falava com ninguém, mas ninguém também tinha coragem de chegar perto da sua casa, Muitas já haviam sido roubadas, mas a dele ninguém jamais chegou perto ou se chegou, não saiu de lá.
Mas, o que poucos sabiam era que Wilton voltara realmente do inferno e não era o inferno da guerra não, mas sim, do inferno para onde vão todos aqueles que se metem com guerras.
Wilton era tenente de um pelotão designado a avançar contra os alemães que estavam muito próximo e se não fossem ao seu encontro seriam massacrados. Seu superior o chamou e disse que seu pelotão iria enfrentar o avanço. Wilton ainda tentou argumentar que eram poucos homens pra a quantidade de alemães, mas seu coronel ordenou, dizendo que era dever deles dar a vida pela pátria.
Wilton chamou seus homens, informou o que deveriam fazer e via nos olhos deles o medo exposto; mas disse que estaria à frente e era para que não tivessem medo, pois o medo faz um defunto.
Quando Wilton disse que estaria à frente do pelotão, todos ficaram mais tranqüilos. Ao anoitecer todos estavam prontos para saírem. Enquanto marchavam na direção dos inimigos, todos pensaram que estavam indo para a morte, inclusive, Wilton.
No acampamento, um outro coronel aproxima-se e pergunta o porquê de mandar aqueles homens para ir de encontro ao inimigo, visto que eram poucos diante dos outros. Seu superior disse que já não gostava mesmo daquele tenente Wilton e de seus homens, desde que executaram uma tarefa de resgate bem sucedida eles estavam se achando os melhores.
Mas, o outro coronel disse que ele os havia condenado por serem heróis, isso não seria justos com eles! O outro disse que eles eram em cem homens e os inimigos estavam em quase três mil. Quando houvesse o confronto, antes de morrem todos, eles com certeza eliminariam pelo menos uns mil, pois eram bons homens e quando os inimigo chegasse até aqui estariam em menor quantidade e os enfrentariam de igual para igual.
Mesmo sem concordar com aquilo o outro coronel pegou seus comandados e saíram em direção da tropa de Wilton, antes de sair o outro coronel disse que seria loucura ele ir lá, pois iria morrer também; mesmo assim eles foram se juntar aos homens de Wilton.
Quando chegaram até eles, o coronel informou que o comando de seus homens estava por conta de Wilton, ele ficou surpreso, mas aceitou a incumbência..Depois de caminharem por léguas sem encontrar nenhum alemão, Wilton pára, chama o coronel, que se juntou a ele e diz:
- Há algo de errado, nas informações que me passaram!
- O que está errado tenente?
- Já caminhamos o suficiente para encontrar os alemães e nem vejo vestígios de ter passado alguém por aqui e nem sinal de que há alguém à frente, porque eles colocam homens de observação.
- O que isso quer dizer?
- Isso quer dizer que: ou estamos caindo numa emboscada ou os homens que ficaram no acampamento estão sendo atacados de surpresa!
- Será?
Wilton dá ordens aos homens para ficarem atentos, pois iriam voltar ao acampamento, mas que tomassem cuidado, pois poderiam estar numa emboscada.
Eles estavam a um dia do acampamento, mas precisavam ser rápidos. E, assim, sob o comando de Wilton se dividiram, ficando um pelotão, o que viera depois a uma hora de distância, e os de seu pelotão apertariam o passo para chegarem mais rápido.
Quando já estavam próximos, Wilton avistou fumaça vindo por de trás das montanhas, sinalizou aos homens para ficarem abaixados e em silêncio. Assim foram subindo o morro e se deparam com a destruição completa do acampamento e os homens que ficaram estavam em sua maioria mortos e os que não foram mortos foram feitos prisioneiros.
Wilton mandou um mensageiro até o coronel que ficou com os outros homens para trás, informando o que ocorrera no acampamento e que apertassem o passo, pois iria atacar com sua tropa os inimigos e tentar libertar os prisioneiros. Quando o coronel chegou com seus homens, Wilton se reuniu com ele e o informou de seu plano.
Ele diz que seria uma loucura fazer aquilo com aquela quantidade de homens. Mas, Wilton diz que já havia conversado com seus homens e iriam sim libertar seus amigos. O coronel diz para Wilton o que aconteceu, ou seja, o diálogo que teve com o outro coronel que o mandou naquela missão, tudo para tentar desanimar Wilton.
Mas, Wilton estava decidido a ir. O coronel, então, disse que ficaria na retaguarda enquanto ele atacasse, mas que não os enfrentariam assim com aquela quantidade de homens somente.
Wilton chamou alguns de seus homens, explicou o que fariam e disse que não queria que ninguém morresse, pois o plano seria o seguinte:
- Nós somos cem homens, quero vinte e cinco homens dando a volta para atacá-los por trás. O sinal será um luminoso para todos.
- Quero outros vinte e cinco homens indo pela direita e outros vinte e cinco pela esquerda.
- Os outros vinte e cinco irão comigo pela frente, enquanto os outros homens do pelotão do coronel ficarão aqui, para entrarem depois que estivermos por lá.
- Mas, quero que todos coloquem algumas granadas a 20 metros de cada grupo serão vinte e cinco granadas para cada grupo e assim que dermos o sinal, atacaremos e jogaremos as granadas; isso dará a impressão que somos muitos mais homens. E, se dermos sorte, não precisaremos perder nenhum de nossos homens, pois atacaremos pela manhã, quando estiverem acordando e poucos homens na vigília se assustarão.
- Se tudo for conforme estou pensando, eles se entregarão sem precisarmos matar e nem morrer.
- Todos entenderam e concordam comigo?
Todos os homens concordaram com ele. Enquanto isso, o coronel o observava conversando com seus homens. E, para seu espanto não via em nenhum deles a expressão de medo, pois todos confiavam em seu líder, o tenente Wilton.
Pela manhã no horário marcado todos estavam a seus postos e fizeram exatamente o que o tenente Wilton passou-lhes e, para espanto do coronel, os inimigos se renderam sem que eles precisassem eliminar quase ninguém, somente os vigias foram mortos, porque revidaram; mas o tenente Wilton não perdeu nenhum homem.
Entre os prisioneiros estava o coronel Irland que o mandara para a morte certa. Quando ele viu que quem os salvou foi a tropa do tenente Wilton, ele ajoelhou-se no chão e pediu perdão pelo que fizera. Wilton disse que ordens eram para serem cumpridas; mas antes deveria analisar os riscos que poderiam acontecer, pois se ele tivesse perguntado, ele teria previsto isso.
O coronel Irland quis saber como ele poderia prever isso. O tenente diz:
- Perdão coronel, mas seu informante não era de confiança, ali está ele preso entre os alemães. Ele não era um dos nossos e, sim, um espião e em espiões não se pode confiar. O senhor deveria ter se reunido com os outros coronéis e planejarem uma estratégia primeiro.
O tenente Wilton previa tudo, pois quando dormia sonhava sempre que estaria em casa, sentado em sua varanda olhando a rua; somente uma noite sonhou diferente e foi na noite que resolveu voltar ao acampamento.
Wilton estava dormindo, sonhou que passava por entre pessoas que caminhavam na direção de uma luz estranha. A luz era bem clara, mas não ofuscava a vista, as pessoas caminhavam naquela direção e depois sumiam ao chegar lá.
Wilton chegou bem perto, mas não entrou dentro daquela claridade, pois quando ia entrando, viu que eram os alemães que estavam indo para aquela luz e quando chegavam lá, sumiam, gritando com horror. Não era seu pelotão. Logo que acordou resolveu voltar ao acampamento.
Durante a guerra o tenente Wilton conseguiu trazer para casa oitenta dos seu cem homens do seu pelotão. E, apesar de alguns ferimentos, conseguiu a patente de coronel por bravuras e todos os seus soldados passaram de soldados a tenente, por bravuras também.
Hoje vive como em seus sonhos, sentado na varanda de sua casa, olhando para a rua; e cada dia vive como se fosse o último, sem se preocupar com nada.
Ele não fala com ninguém, porque só sabia dar ordens; e prometeu a si mesmo que não daria ordens a mais ninguém, a não ser a ele mesmo; e a ordem que dera para si, era descansar para o resto de sua vida.
AMÉM
Marcos Toledo


Em 15/07/2019 às 12:00:08

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